Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP

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Procura-se engenheiros

Diante do desenvolvimento econômico do Brasil, cresce a oferta de vagas na área de Engenharia, mas universidades não formam número suficiente de profissionais para absorver essa demanda

Mais de 7% de crescimento. Segundo dados divulgados pelo IBGE, esta foi a margem alcançada pelo PIB do Brasil em 2010. Somado a isso, apenas no primeiro trimestre de 2011 o setor industrial aumentava seu desempenho em 2,3% frente ao ano anterior. Diante deste cenário positivo da economia brasileira, diversos segmentos da indústria optaram pela ampliação dos meios de produção e, como consequência, a demanda por profissionais da área de Engenharia sofreu um boom.

“As oportunidades são imensas”, comenta o professor Kléber Mendes de Figueiredo, coordenador do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Goiás (UFG). “Um exemplo é a descoberta de petróleo na camada pré-sal, que irá demandar mão de obra altamente qualificada”, completa.

Milhões de reais em investimentos também serão atraídos para o Brasil com o advento dos megaeventos esportivos de 2014 e 2016, já que haverá a necessidade de obras de infraestrutura em praticamente todas as regiões do País. “Instalações de grande capacidade e com alto padrão de qualidade e segurança serão construídas para atender o elevado fluxo de turistas que virão prestigiar esses eventos”, informa o professor Otavio Silvares, reitor do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia.

A sofisticação de produtos e processos é outro fator que contribui para o aumento da demanda por esses profissionais, já que o aumento de vagas para engenheiros no País está diretamente relacionado à busca pela melhoria de processos de produção e de operações logísticas.

Gargalo na Engenharia

Sendo assim, em todas as regiões do País nota-se uma carência de engenheiros. “Em 1997, a Engenharia era a terceira graduação com o maior número de matriculados ao ano, com cerca de 150.000 inscritos”, informa Silvares. “Já em 2006, caiu para a 16ª graduação com maior procura, com apenas 62.000 matriculados”, continua.

Estes números mostram claramente a origem da falta de profissionais de Engenharia no mercado. “Formamos cerca de 35.000 profissionais por ano, enquanto deveríamos estar formando 65.000″, observa o professor.

Segundo Figueiredo, da UFG, há demanda por engenheiros em todos os setores da indústria, tanto em empresas dedicadas à extração de minérios e produção de matérias-primas como nas que produzem bens de consumo. Vanderli Fava de Oliveira, diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e membro do grupo de trabalho de graduação da Associação Brasileira de Engenharia de Produção (Abepro), completa apontando que é por meio da contribuição destes profissionais que se torna viável agregar tecnologia de ponta aos produtos nacionais.

“Hoje somos praticamente um País que comercializa commodities”, critica. “Se não revertermos este quadro, nos tornaremos escravos das patentes, pagando royalties a outros países para usufruir de tecnologias que poderiam ter sido desenvolvidas aqui”, alerta.

Aumento de vagas para engenheiros no País está relacionado à busca pela melhoria de processos de produção e de operações logísticas

Segundo Silvares, da Mauá, o governo deve interagir com universidades e empresas a fim de apoiar pesquisas para o desenvolvimento de novas tecnologias no País. Ao contrário do que ocorre no Brasil, nos países desenvolvidos governo e iniciativa privada investem em pesquisa, gerando patentes, o que sem dúvida valoriza a produção intelectual. “Para manter o mercado brasileiro tão competitivo quanto os demais, é necessário desenvolver tecnologias nacionais, com foco em novos processos e produtos”, pontua.
Profissional internacional

A Engenharia Mecânica é uma das áreas que mais tem apresentado alta demanda por esses profissionais; e o bom ano de 2010 para a indústria automotiva abriu muitas vagas nesse setor. O mesmo está ocorrendo nos setores de energia, de minas, petróleo e gás e metalurgia.

“As instituições de ensino não estão conseguindo oferecer vagas suficientes para a atual necessidade do País”, comenta Figueiredo. “Uma alternativa para suprimir este gargalo tem sido a ‘importação’ de profissionais de outros países, ou até mesmo de outras áreas”, completa.

Com a globalização dos mercados, além do domínio de um segundo idioma – requisito hoje indispensável –, outra novidade é a tendência à internacionalização dos profissionais. Um grande número de estrangeiros tem vindo ao Brasil atraído pelas múltiplas oportunidades de trabalho e, na contramão, muitos brasileiros estão indo atuar no mercado externo em busca de melhores ofertas de remuneração, já que muitas vezes o salário pago aos engenheiros no Brasil é incompatível com o nível técnico exigido pelas empresas.

“Hoje, a atuação desses profissionais se dá em escala internacional”, conta o professor Marcelo Alves, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. “A tendência é a formação de equipes multinacionais onde será preciso conviver com pessoas de outras culturas, acostumadas a trabalhar de forma diferente”, explica.

Diante dos resultados positivos alcançados em 2010, cresce o número de vagas disponíveis para que novos profissionais passem a atuar na indústria automotiva

Segundo Figueiredo, o avanço da tecnologia e da globalização gerou a necessidade de se ter uma visão mais ampla da realidade e de uma nova maneira de organizar o trabalho. “A percepção do profissional contemporâneo não pode mais se restringir à sua área de atuação, mas deve contemplar todas as áreas de interface”, comenta.
Superando desafios

Para ocupar posições cobiçadas no mercado, o profissional necessita conhecer a fundo o funcionamento das empresas e dos mercados, como as tendências do setor em que deseja atuar e os métodos de trabalho da companhia. “Desde os cursos de graduação, é fundamental que os professores fortaleçam o lado empreendedor dos estudantes, pois é a partir desta postura que boas oportunidades aparecerão”, acredita o professor Alves, da Poli.

Outro desafio é manter-se atualizado. O uso intensivo de sofisticados softwares para projetos, construções, operações e controle de equipamentos e instalações requer o constante aprimoramento dos profissionais de Engenharia.

Entretanto, essa escalada profissional começa por um bom curso de Engenharia, que prepara os estudantes por meio de uma sólida formação teórica, fornecendo as condições necessárias para que possam rapidamente assimilar a parte prática. “Hoje o mercado não está interessado somente naquilo que o aluno sabe, mas principalmente naquilo que o aluno sabe fazer com os conhecimentos que adquiriu”, diferencia Vanderli, da ABENGE.

Para isso, é importante que as escolas não só ensinem os conhecimentos técnicos da profissão, mas desenvolvam também nos alunos outras competências como liderança, empreendedorismo e visão sistêmica. “O mercado muda mais rápido que as instituições de ensino modificam seus currículos”, admite o professor Alves, da Poli.

“As boas escolas de Engenharia oferecem mais do que aulas teóricas”, defende Alves. “Elas disponibilizam infraestrutura moderna para que os estudantes já comecem a ganhar experiência nas salas de aula”, finaliza.

Formar um engenheiro especializado na indústria “A” pode ser um equívoco caso este profissional venha a atuar na indústria “B”. Por este motivo, o papel das universidades é formar profissionais versáteis, com conhecimentos globais e aptidão para aprender rápido. Para melhor compreensão deste cenário, Vanderli, da ABENGE, faz um paralelo entre a formação de um profissional e o perfil de uma fábrica:

“Até a década de 1960, bastava ter boas instalações, equipamentos modernos e o dinheiro necessário para que uma fábrica conseguisse produzir e vender seus produtos com sucesso”, lembra. “Mas hoje é diferente. Se não houver um investimento constante no aprimoramento dos processos de fabricação, manter uma fábrica competitiva no mercado torna-se impossível”, continua.

Para ocupar posições cobiçadas, profissional precisa conhecer a fundo a dinâmica dos mercados

Vanderli conclui afirmando que é preciso investir na melhoria dos processos de aprendizagem dentro das universidades a fim de formar engenheiros competitivos e prontos para atuar em um mercado cada vez mais exigente.

Por Thais Paiva, da revista o Mundo da Usinagem

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