Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP

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Cidadania sobre rodinhas

32 jovens do Jardim São Remo aprenderam brincando a desenvolver um projeto mecânico para o seu carrinho de rolimã

32 jovens do Jardim São Remo aprenderam brincando a desenvolver um projeto mecânico para o seu carrinho de rolimã

Grande Prêmio de Carrinhos de Rolimã da Escola Politécnica foi realizado neste ano com uma novidade: a participação de jovens do Jardim São Remo, que projetaram e construíram seus próprios veículos

Por Izabel Leão, do Jornal da USP

Este ano, o já tradicional Grande Prêmio de Carrinhos de Rolimã da Escola Politécnica da USP apresentou novidades. Além da corrida anual, realizada na rua do Matão, na Cidade Universitária, O Centro Acadêmico Mecânica e o Projeto Poli Cidadã promoveram a Oficina de Carrinho de Rolimã, destinada a crianças e adolescentes do Jardim São Remo, comunidade carente que fica ao lado do campus da USP, no Butantã, em São Paulo.

Foram três sábados (28 de maio e 4 e 11 de junho) em que 32 jovens do Jardim São Remo, meninos e meninas entre 10 a 14 anos, aprenderam brincando a desenvolver um projeto mecânico para o seu carrinho de rolimã.

Por que projeto mecânico? Segundo o coordenador do Poli Cidadã, professor Antonio Luis de Campos Mariani – docente do Departamento de Mecânica da Escola Politécnica –, pensar o carrinho de rolimã a partir de uma estrutura de projeto já ajuda e motiva o jovem a entender de que forma se constrói um veículo, discutindo e pensando sobre dimensões, materiais, medidas, design e dinâmica, entre outros itens.

O professor Mariani e Maria Ines: atividades exigiram do aluno cálculo, raciocínio e criatividade

O professor Mariani e Maria Ines: atividades exigiram do aluno cálculo, raciocínio e criatividade

No primeiro sábado, os jovens passaram discutindo e registrando os dados de seus projetos. No segundo sábado, os carrinhos foram fabricados e decorados. Na última etapa as equipes foram convidadas a testar seus protótipos em uma bateria especial do tradicional Grande Prêmio de Carrinhos de Rolimã da USP, com direito a prêmios e medalhas.

Ao final, todos os participantes receberam um convite: “Vamos pensar no futuro?”, sugeriu Maria Ines Piffer, assistente da Comissão de Cultura e Extensão da Escola Politécnica. “Como percebemos que algumas crianças têm talento para seguir a carreira técnica, procuramos dar-lhes um direcionamento, informando os cursos do Senai e exemplificando que eles devem pensar no que farão quando adultos.”

Integrantes do Centro Acadêmico Mecânica, ao perceberem a curiosidade que o grande prêmio desperta nas crianças do entorno da USP, resolveram oferecer essa oportunidade. Rafael Sanchez Souza, coordenador cultural do centro, conta que foram momentos de grande emoção para os jovens. “Aos poucos percebíamos o encantamento e a vontade de ter o carrinho pronto para descer a rua do Matão.”

Mão na massa – A oficina se desenvolveu com oito equipes de quatro meninos e meninas. Cada equipe de jovens contou com um ou dois monitores do curso de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica e se dividiu por funções: havia o capitão, o que fez papel de líder e organizador da equipe, o projetista, que registrou no diário os passos do projeto, o ferramenteiro, que cuidou das ferramentas, e o designer, que propôs as cores, formato e acabamentos. Também se integraram ao grupo quatro enfermeiras da Escola de Enfermagem da USP, atuando na prevenção e cuidados à saúde.

Jovens do Jardim São Remo nas oficinas: talentos para a área técnica

Jovens do Jardim São Remo nas oficinas: talentos para a área técnica

Mariani conta que muitos jovens, ao chegarem no dia da oficina, já queriam logo construir um carrinho e diziam não estar ali para projetar nada. Foi quando um dos monitores entregou um pedaço de madeira e disse que eles poderiam começar. “Nesse momento os jovens perceberam que sem pensar numa estrutura mínima não se chega a lugar nenhum. Mostramos que, ao esboçar um projeto escrito e desenhado antes de colocar a mão na massa, eles poderiam saber melhor que tamanho de carro queriam, qual o tipo de parafuso usariam e qual a estrutura, entre outros detalhes.”

O professor Mariani afirma que o objetivo da oficina foi integrar os membros das comunidades São Remo e USP, além de despertar o interesse e vocações nos meninos e meninas participantes, para seguirem, quando adultos, alguma área técnica na formação profissional. Outro objetivo foi ampliar a sensibilidade social dos estudantes, funcionários e docentes da Escola Politécnica e oferecer orientações sobre possibilidades de cursos técnicos, como os de Aprendizagem Industrial, do Senai.

O evento também contou com a participação do diretor da Escola Politécnica, professor José Roberto Cardoso, que visitou o galpão de eventos, além de estudantes, funcionários e professores. “Para nossa surpresa, foram 40 estudantes da Poli ajudando no evento”, afirma Mariani.

Maria Ines conta que uma das mães presentes agradeceu e fez um apelo ao grupo da Poli: “Nossos jovens não sabem identificar possibilidades de emprego. Mostrar para eles essa possibilidade de carreira profissional é muito importante”.

Parceiros – Outro fato gerado pelo evento foi o relacionamento entre alunos da Escola Politécnica e jovens socialmente desfavorecidos. “Houve um despertar para as necessidades dos jovens carentes. Os alunos da USP perceberam que não devem vê-los com elementos perigosos, e sim como parceiros, para dividir o conhecimento e ajudá-los a sair dessa condição desfavorável”, comenta Mariani. “Em contrapartida, os jovens da comunidade São Remo passam a enxergar a Universidade como um lugar legal, em que podem se integrar.”

Para o professor Mariani, a USP deve ter mais abertura e colocar seu aparato de forma mais ampla a serviço da comunidade. “Temos uma grande potencial para ajudar na educação de nossos jovens”, afirma ele, lembrando que, para os jovens, esses encontros foram momentos de muita emoção. “Se, para nós, fazer um furo com um equipamento é algo trivial, para eles foi pura emoção. A lixa, o rolamento eram estímulo para entender como funcionam as coisas”, reflete.

A empresa NKS, de rolamentos, patrocinou camisetas, divulgação e ferramentas. As equipes, para desenvolver o carrinho, receberam vários materiais: um diário para registrar as ideias, medidas, processos de fabricação e desenhos; uma caixa de ferramentas com martelo, chave combinada, trena, escala metálica, grosa, lixas, alicate; óculos e máscaras de proteção; e madeiras, tubo de metal, rolamentos, parafusos, porcas, arruelas, pregos, tintas, pincéis etc. “Tudo retornou à Poli”, diz Maria Ines.

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